o que acontece quando o cerrado encontra o mar

Salpicam conchinhas no solo ardente e seco, quando batem as gotas salgadas que pingam dos dedos molhados, logo evaporam, o solo seco é como um coração endurecido, há de ser e se molhar constantemente de água boa pra que se amoleça de verdade. Molhado virá a lama a aparecer com suas cores maestrinas, amarelo ocre, vermelho, vermelhinho alaranjado, vermelhão.

E se a poeira florescesse com estrelas do mar? Estrelas floridas seriam.
O chão numa misturas de corais e raízes.
Mil texturas numa mistura respeitosa.

E se a mulher do mar encontra a mulher do cerrado?

Se abraçam e se fundam em uma sabedoria de ouvir o chão, cheirar o vento, tocar a pele com a fallta e a abundância da chuva farta, da água farta, da vivência sábia, valente e farta. Uma carrega a outra e se protegem. Uma ouve, a outra cala. Há tanto no ar que tudo vibra e não se precisa dizer nada.

É muito o que se sente.

Rios vão para o mar. Sorrindo.
Rios vão para o mar. Chorando.
Rios saem de lá.
Sabem que sempre estiveram juntas de alguma forma.
Sábias com seus odores latentes e potentes.
Se encontram onde se encontram a maresia, a poeira, as ondas, as flores de pequi e os sabiás-laranjeiras.

2020

Artista visual, pós-graduanda em Estudos Brasileiros pela FESP-SP https://jessvieira.com

Artista visual, pós-graduanda em Estudos Brasileiros pela FESP-SP https://jessvieira.com