A arte como expressão da subjetividade do sentir de pessoas negras em um país estruturalmente racista

RESUMO

Este ensaio tem como foco a subjetividade presente na produção artística de pessoas autodenominadas negras brasileiras na contemporaneidade, observando como suas manifestações artísticas propõe de maneira reflexiva e afetuosa a humanização dessas pessoas. Com o objetivo de promover um olhar menos estereotipado de suas subjetividades, desdobraremos exemplos de composições musicais e visuais de artistas negros contemporâneos que falam sobre suas particularidades e ainda assim atuam como ARTivistas. Correlacionaremos às produções artísticas, termos presentes nas discussões decoloniais como a solidão da mulher negra, a objetificação dos corpos negros e o adoecimento psíquico promovido pelo racismo. Por fim, teremos como base produções teóricas do campo da sociologia e psicologia que tem como discussão principal solucionar as reproduções de opressão vivenciadas por pessoas autodenominadas negras no Brasil.

Palavras-chave: subjetividade negra, arte contemporânea, perspectivas decoloniais

INTRODUÇÃO

O racismo gera efeitos psicológicos nocivos em pessoas negras desde a infância, afetando diretamente sua formação de identidade, enclausurando sua subjetividade, prejudicando a autoestima e autopercepção que são forjadas socialmente para atribuir referências negativas, inviabilizar e desqualificar pessoas negras, promovendo um branqueamento, a substituição de seu traços físicos e comportamentais em prol de uma sociedade monitorada por uma dominação colonial e eurocentrada. Uma das lógicas do racismo é destituir a humanidade de pessoas negras, uma vez que um ser é visto como uma coisa ele pode ser explorado, vendido, abusado e morto. Quando a humanidade de pessoas negras é coisificada, se tira o direito de amar e ser amado, de ter afeto, vínculo e apreço, voz ativa e liberdade, pois não há relação de amor, ou cuidado, ou atenção entre coisas e sim entre pessoas. “O lixo vai falar, e numa boa” é uma das frases mais provocantes de Lélia Gonzalez que tinha em si a responsabilidade de trazer luz e voz para as narrativas negras invisibilizadas por justamente pessoas negras serem lidas como “lixo”. A busca de uma pessoa negra não é só pela sua humanização em sociedade, mas também da ruptura do ideal branco eurocentrizado em suas relações externas e consigo mesma. A psicanalista Neusa Santos Souza (1983) aborda a relação da pessoa negra com o próprio corpo:

A partir do momento em que o negro toma consciência do racismo, seu psiquismo é marcado com o selo da perseguição pelo corpo-próprio. Daí por diante, o sujeito vai controlar, observar, vigiar este corpo que se opõe à construção da identidade branca que ele foi coagido a desejar. A amargura, desespero ou revolta resultantes da diferença em relação ao branco vão traduzir-se em ódio ao corpo negro. (SOUZA, Neusa Santos, 1983)

A corrente Vidas Negras Importam fala sobre o direito a vida e a livre existência. Que inclui a construção de laços afetuosos, de se manifestar livremente sem perseguições e de ser uma raça com signos corporais diversos. A negação da subjetividade da pessoa negra passa pela maneira generalizante que se tem de olhar os corpos, a cultura e etnicidade negras como sendo una e pictórica e não rica e vasta como ela é, esvaziando o sentir, o pensar e a forma de ver a vida que são constituídas pelas vivências individuais de cada um.

O resgate da autoestima e do senso de valor de sua história inspira pensadores e artivistas formando suas narrativas e criações, gerando um movimento que dribla à exaustão da luta diária pela existência e de não se entregar à tristeza de um mundo que os exclui e inviabiliza. É com essa ideia de mostrar verdadeiras narrativas que Beatriz Nascimento narra sua história pessoal como fio condutor no documentário Óri (1989), filme da cineasta e socióloga Raquel Gerber, que mostra a resistência de movimentos negros entre os anos 1977 e 1988, e a sua direta relação com manifestações culturais, mostrando que é através da arte, da religião, da formação familiar e de amizades que se resiste e se mantem características individuais e coletivas vivas.

  1. A perversidade do racismo desde a infância e o roubo da possibilidade de sonhar

“Meu nome é Caique tenho 10 anos e vivo no morro do alemão. Jogo bola, solto pipa, desenho.” O que você quer ser quando crescer? “Eu? Eu quero ser médico”

(Trecho de Bluesman, Baco Exu do Blues — 2019)

É com a cena de uma criança negra com sotaque carioca, sobrancelhas erguidas e olhos grandes que tem início o filme oficial do álbum Bluesman do cantor baiano Baco Exu Do Blues, a canção que leva o nome do álbum, propõe entre muitas reflexões a ideia do que a branquitude espera de jovens negros “Eles querem um preto com arma pra cima num clipe na favela, gritando cocaína, querem que nossa pele seja a pele do crime”. Para prosseguirmos é importante definirmos o que é branquitude, segundo a pesquisadora Ruth Frankenberg, branquitude é um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê os outros, e a si mesmo, uma posição de poder, um lugar confortável do qual se pode atribuir ao outro aquilo que não se atribui a si mesmo. (Frankenberg, 1999) Quando Baco, questiona o que a branquitude quer e mostra em seu filme uma criança de dez anos que brinca e tem o sonho de ser médico, ele visibiliza uma narrativa pouco difundida, a de que crianças negras tem perspectivas de futuros que envolvem uma boa estrutura educacional e social, em lugar da criminalização dos jovens que vivem em favelas. Nesse momento temos com clareza o que é visibilizar narrativas reais por meio da representatividade, afinal Baco já foi uma criança que brincava e tinha sonhos. A professora Eliane Cavalleiro investigou como o racismo é cruel desde a primeira infância, Eliane foi a campo e durante oito meses fez uma observação sistemática do cotidiano escolar em uma escola de Educação Infantil (EMEI) na região de São Paulo, onde colheu dados e relatos de crianças negras que muitas vezes ao sofrer com atos racistas de crianças brancas não eram protegidas pelos professores que não adotavam medidas a fim de conscientizar as crianças. A pesquisa de Eliane mostra que as crianças brancas recebem mais oportunidades de se sentir aceitas e queridas que as demais, elas recebem elogios como bonitas, inteligente e espertas, enquanto as crianças negras são elogiadas pelas tarefas bem feitas, condicionando-as a posição de ser humano não digno de admiração ou beleza. (Cavalleiro, E. dos S., & Gomes, J. V. , 1998).

  1. Dororidade: por um feminismo que não exclua a dor das mulheres negras

É com o neologismo dororidade que a especialista em língua portuguesa, Vilma Piedade, propõe um feminismo interseccional inclusivo no Brasil, a palavra não anula sororidade, mas agrega a ela perspectivas decoloniais que levem em conta a história ancestral e vivência de mulheres negras brasileiras. (Piedade, Vilma. 2018). É sob a perspectiva de vivências femininas negras que a cantora Luedji Luna cria sua produção artística.

Eu não tenho chão, nem um teto que me queira, nem parentes que me saibam, nem família que me seja, tenho apenas uns amigos, mas talvez só tenha um, não tenho um amor que me ame, um homem que aconchegue e guarde, nem uma mulher eu tenho, não tenho dinheiro no banco, nem guardado nalgum canto, quase que não tenho nada, e quase tudo que tenho, levo guardado dentro, alguns sonhos guarnecidos, um ventre de parir três filhos, e um passaporte vencido. (Trecho de Chororô, Luedji Luna — 2020)

Na música Chororô de Luedji Luna, temos a voz de uma mulher negra que para além da falta de recursos financeiros, vive o vazio da solidão, a quebra de laços familiares tanto em sua ascendência como na descendência, sendo uma mãe solo e a quem foi negada o direito de se sentir amada e restou a ela guardar seus próprios sonhos. Existe um processo histórico que coloca a mulher negra como ser desumanizado, um objeto de exploração sexual e de mão de obra. A miscigenação que ainda é vista como orgulho nacional foi fruto da violação de corpos de mulheres negras, como afirma Lélia Gonzalez, o mito da democracia racial se alimenta do mito da cordialidade erótica das relações sociossexuais entre o colonizador português e a negra escravizada (Gonzalez, Lelia. 2019). Isso somado ao processo colonial condiciona a solidão da mulher negra, que ganha maior proporção quanto mais retinta a mulher em questão é.

Esses estereótipos são percebidos e absorvidos por toda a sociedade, inclusive por homens e mulheres negras. A miscigenação, que é uma prática histórica e cultural presente desde a formação da sociedade brasileira, se realiza mais pela preferência afetivo-sexual de homens negros por parceiras não negras do que o contrário (PACHECO, 2008). Há a ideia de que mulheres bonitas são as mulheres brancas e muitas vezes relações interraciais são entendidas como uma forma de ascensão social, fruto do embranquecimento imposto desde o período pós colonização e que toma força e campo nas ciências através do racismo científico do século XIX, traduzindo a divisão da humanidade em raças, uma hierarquia biológica, na qual brancos ocupam a posição superior.

A artista plástica e professora Rosana Paulino investiga aspectos estruturantes da matriz de dominação racial desde os anos 1990, na instalação Assentamento ela cria o que podemos chamar de refazimento de representações etnográficas de pessoas escravizadas e se concentra na reflexão sobre o sequestro da cultura, opressão e violência de povos africanos, causando profundas marcas visíveis ou não. Em Assentamento, vemos a imagem de uma mulher negra escravizada, nua e de olhar perdido, recortada e costurada, com seu coração a vista e linhas vermelhas semelhantes a sangue que escorrem de seu peito. “Eu reconstruo essas imagens, faço suturas nas fotos, mas dá para perceber que as partes não se encaixam perfeitamente: isso é a escravidão.” relata Rosana no catálogo da exposição Assentamento. (PAULINO, Rosana 2018)

Ao olhar para a figura dessa mulher entendemos que ainda hoje mulheres negras carregam essas suturas, marcas que ferem o sentimento e a possibilidade de serem amadas. Segundo o Censo do IBGE 2010, 52,52% das mulheres negras que participaram do levantamento não viviam uma relação estável.

Eles voltavam para suas casas e contavam às suas esposas,

que nunca antes em suas vidas

haviam conhecido uma garota como eu,

Mas… Eles voltavam para suas casas.

Eles elogiavam a limpeza da minha casa,

eu não dizia nenhuma palavra que não fosse a certa

e mantinha meu ar de mistério,

Mas… Eles voltavam para suas casas.

As bocas de todos os homens me enalteciam,

eles gostavam do meu sorriso, da minha sagacidade, dos meus quadris,

passavam uma noite, ou duas ou três.

Mas…(Maya Angelou, Poesia completa, 1969)

O poema de Maya Angelou atravessou séculos e ainda se mantem atual, ele traz a perspectiva de uma mulher que se dedica ao lar, que busca agradar mesmo que se cale e que é desejada sexualmente. Mas é através do pensamento de Beatriz Nascimento em A mulher negra e o amor que racionalizamos os fatos do poema e o somamos a uma exceção social crescente que foge da ideia da mulher negra subalternizada no aspecto sexual e econômico, deixando claro que as questões de abandono e negação de relações afetivas com mulheres negras se amplia para camadas sociais mais altas também:

Uma mulher preta que atinge determinado padrão social, no mundo atual, requer cada vez mais relações de parceria, o que pode recrudescer as discriminações a essa mulher específica. […] Quanto mais a mulher negra se especializa profissionalmente numa sociedade desse tipo, mais ela é levada a individualizar-se. Sua rede de relações também se especializa. Sua construção psíquica, forjada no embate entre a sua individualidade e a pressão da discriminação racial, muitas vezes surge como impedimento à atração do outro, na medida em que este, habituado aos padrões formais de relação dual, teme a potência dessa mulher. Também ela, por sua vez, acaba por rejeitar esses outros, homens, masculinos, machos. Já não aceitará uma proposta de dominação unilateral. Desse modo, ou permanece solitária, ou liga-se a alternativas, onde os laços de dominação possam ser afrouxados. Convivendo em uma sociedade plurirracial, que privilegia padrões estéticos femininos como ideal de um maior grau de embranquecimento (desde a mulher mestiça até à branca), seu trânsito afetivo é extremamente limitado. Há poucas chances para ela numa sociedade em que a atração sexual está impregnada de modelos raciais, sendo ela representante da etnia mais submetida. (NASCIMENTO, Beatriz. 2019)

Sintetizar sentimentos é um dos desafios que encontramos como ser social, sintetizar os sentimentos de uma raça que foi por muito tempo silenciada é um desafio ainda maior, e em se tratando dos sentimentos da figura da mulher negra que dentro da sociedade exerce a função de o “outro” do outro, (Kilomba, Grada. 2019) sendo sempre o outro e nunca si mesma, a mulher negra mesmo que tendo ascendido socialmente, fica em posição de inferior, em uma posição de negação de suas próprias características e personalidade, desejos e individualidade, em uma sociedade que tende a distanciar o discriminado das fontes de desejo e prazer, o que acarreta complexos psicológicos, estendidos por muitas gerações atravessadas pelo racismo e pelo sexismo. (NASCIMENTO, Beatriz. 2019)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Além das subjetividades nocivas expostas aqui, o sentir da pessoa negra vai além da angústia, dor e desesperança. Como canta MC Tha em sua música Valente, pessoas negras que ganham visibilidade abrem o caminho para sonharem sem a negação de suas origens ou necessidade de buscar o ideal embranquecido. “Bote o dedo pro alto e deixa os pés na raiz. No asfalto ou na favela, Quem não quer ser feliz? […] Beber sabedoria Se encontrar pra ser livre?” (MC THA, 2018). Quando pessoas negras passam a cantar o amor, a finitude, suas efemeridades, suas dualidades e aprendizados, toda uma raça passa a ter destaque e ganha força para romper barreiras que foram sustentadas por uma matriz de dominação, é o início da sintetização de cura vinda da afetividade e humanização de pessoas historicamente marginalizadas que passam a ter liberdade para construir e expor suas próprias narrativas.

BIBLIOGRAFIA

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro. Rio de Janeiro: Graal, 1983

GONZALEZ, Lélia, Por um feminismo afro-latino-americano, São Paulo: Zahar, 2020

Ôrí — 1989 — Raquel Gerber https://www.youtube.com/watch?v=XJYct4MGuYk

Rosana Paulino : a costura da memória / curadoria Valéria Piccoli, Pedro Nery ; textos Juliana Ribeiro da Silva Bevilacqua, Fabiana Lopes, Adriana Dolci Palma — São Paulo : Pinacoteca de São Paulo, 2018.

Acesso em 7 de Dezembro de 2020 http://pinacoteca.org.br/wp-content/uploads/2019/07/AF_ROSANAPAULINO_18.pdf

Bluesman Filme oficial — Baco Exu do Blues — Acesso em 7 de Dezembro de 2020 — https://www.youtube.com/watch?v=-xFz8zZo-Dw

Chororô — Luedji Luna — Acesso em 7 de Dezembro de 2020 — https://www.youtube.com/watch?v=KaZeU__e5q4

CAVALLEIRO, E. dos S., & GOMES, J. V. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. Universidade de São Paulo, São Paulo. 1998

GONZALEZ, Lélia, “Racismo e sexismo na cultura brasileira” in Heloisa Buarque de Hollanda Pensamento feminista brasileiro. Formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019 p 237–256.

PACHECO, Ana Cláudia Lemos. Branca para casar, mulata para f… e negra para trabalha: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia. Campinas: [s. n.], 2008.

Definições sobre a branquitude — Acesso em 3 de Dezembro de 2020

https://www.geledes.org.br/definicoes-sobre-branquitude/

“A mulher negra não é vista como um sujeito para ser amado” — Acesso 4 de Dezembro de 2020

https://claudia.abril.com.br/sua-vida/a-mulher-negra-nao-e-vista-como-um-sujeito-para-ser-amado/

ANGELOU, Maya. Poesia Completa, — Tradução de Lubi Prates — Bauru, SP: Astral Cultural, 2020 p. 23

NASCIMENTO, Beatriz, “A mulher negra e o amor” in Heloisa Buarque de Hollanda Pensamento feminista brasileiro. Formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019 p 265–268.

KILOMBA, Grada. Memórias de uma plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução Jess Oliveira — Rio de Janeiro — Cobogó, 2019

MC THA — Valente — Acesso em 7 de Dezembro de 2020 www.youtube.com/watch?v=e-aEr8jDilo&feature=emb_title

Artista visual, pós-graduanda em Estudos Brasileiros pela FESP-SP https://jessvieira.com

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